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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crianças sentem dor e solidão precocemente

As frustrações decorrentes de relacionamentos desfeitos e a dor da solidão são conhecidos precocemente por crianças que vivem em abrigos. O destino da vida adulta prenuncia-se obscuro, principalmente para aqueles que permanecem os anos da infância e da pré-adolescência nesses recintos. As crianças abrigadas, entre 4 e 12 anos de idade, são dificilmente procuradas para adoção, declara a coordenadora do abrigo público Tia Júlia, no Ceará, Luiza Helena, que recebe primordialmente meninas e meninos de 0 a 7 anos. O primeiro momento crucial pelo qual as crianças passam é a rejeição dos pais biológicos, quando são levadas pela Justiça ou Conselho Tutelar às instituições de abrigamento , onde são acolhidas, ficando na expectativa de serem inseridas definitivamente em um lar. A sociedade brasileira desconhece a reincidência das desilusões que sofrem as crianças e pré-adolescentes que estão vivendo nos abrigos, sob o peso da rejeição ou da incapacidade familiar.

Mateus (nome fictício) de 7 anos chegou ao abrigo Tia Júlia com um ano e três meses de idade em fevereiro de 2003 e já passou por quatro tentativas frustrantes de adoção. A mãe biológica era usuária de drogas, prostituta e foi interna da Febemce, relata a assistente social Ana Paula Miranda. Consta no relatório de acolhimento do garotinho que ele era muito afeiçoado a mãe biológica; a qual desaparecia e em tempos inconstantes voltava para vê-lo, até o dia que nunca mais veio visitá-lo, depois dele ter completado dois anos de idade, pontua a psicóloga Luana Lourenço. “Mateus ficou arredio, agressivo e recusava-se em manter contato de confiança e carinho com os outros, desde que a sua mãe deixou de vir vê-lo. Ele sofreu, com o longo tempo em que ela ficou sem dar notícia, e por ela vir esporadicamente, e depois ir embora.” Os primeiros postulantes á adoção dele, foi um casal que desistiu porque ele chorava muito. Depois, aos três anos, houve outro casal interessado, mas ele também não se adaptou. A terceira tentativa de adoção foi internacional, por um casal de italianos, por quem até hoje Mateus pergunta, embora, tenha sido ele próprio que disse não, quando perguntado pelo juiz. O quarto e mais recente processo que esteve inserido, foi a tentativa por uma pessoa solteira, que desistiu por questões pessoais”. Essas quatro tentativas de adoção pelas quais passou essa criança, acarretaram um ônus emocional inegável, relata a assistente social Ana Paula Miranda do abrigo Tia Júlia.

Mateus, ficou com medo

Mateus disse não ao juiz, não aos pais adotivos estrangeiros. “Ele criou um vínculo com o abrigo. Mateus participou de um tratamento psicoterapêutico para trabalhar a adoção dele. Ele queria ir com seus novos pais, mas ,quando se deparou com aquela situação, ficou assustado, com medo de sair do único lugar seguro que conhecia. Naquele momento ele não aceitou a adoção. Contudo, depois, demonstrou vontade de ir. Mateus pediu-me para escrever uma carta para o juiz para que os italianos voltassem, o que não ocorreu. Até hoje ele se refere ao casal, e pergunta se ainda vai para Itália. Mateus hoje com 7 anos de idade, voltou para o Cadastro Nacional.”, declara Luana Lourenço, psicóloga.

As meninas e meninos que vivem nos abrigos vivenciam tristes e decepcionantes emoções muito cedo, principalmente por não compreenderem a contraditória ausência ou presença esporádica de pais que não os assumem e algumas vezes dificultam o processo de adoção, o qual possibilitaria uma família. O retardar da destituição do poder familiar, quando recomendada legalmente, priva crianças de serem restauradas a um convívio familiar digno. A perda da infância, devido a ausência dos laços familiares originais ou substitutos, acarreta uma pré-adolescência problemática, assim também como uma lacuna nas demais fases da vida.

Os maus tratos muitas vezes são denunciados

A assistente social Valdelice Maciel relata sobre crianças com vínculo familiar, aquelas cujos pais visitam os filhos todas as semanas: “A questão financeira das mães é levada em consideração. Elas querem ver seus filhos, no entanto, ligam avisando que não têm condições de vir.”, declara Valdelice.

Valdelice afirma que há um trabalho em conjunto com os Centros de Referência em Assistência Social (Cras) da Prefeitura de Fortaleza para acompanhamento psicológico das mães que desejam ser reabilitadas a levarem seus filhos para casa. “Mães e filhos são acompanhados mensalmente através de relatórios. Esses documentos são a cada dois meses enviados para a justiça. Somente acaba o vínculo familiar quando a mãe abandona totalmente o trabalho de ressocialização e não se encontra possibilidade de adoção na família ampliada.”

A reintegração familiar da criança deve ser precedida de rigoroso estudo, a fim de evitar novas ocorrências de violência ou abandono, as quais originaram o afastamento dos pais.“Uma adoção provisória é dada aos pais biológicos para que a criança retorne á família biológica. Quando há reincidentes situações de risco e a criança volta para o abrigo, ficará mais difícil para aquela mãe conseguir novamente levar seu filho para casa. Os maus tratos muitas vezes são denunciados pela própria comunidade.”, conclui Valdelice.

Adoção é um ato de amor

O abrigo Tia Júlia recebe periodicamente grupos distintos de religiões para ministrar ensinamentos religiosos às crianças e aos colaboradores. Os pequeninos também participam da colônia de férias da Igreja Evangélica Gileade no próprio bairro.“A adoção é um ato de amor que envolve muito da razão. As gestantes esperam nove meses por aquela criança amada; preparam o ambiente físico e familiar para que todos se relacionem bem com aquela nova pessoa que está chegando. De igual modo, deve-se agir em relação a uma criança adotada. Jamais deveria ser tratada como um objeto, que não ajustado á decoração da casa é devolvido ao lugar de origem,”, pontua a assistente social Ana Paula Miranda.

50 vidas nas mãos dos Promotores e Juízes

A coordenadora do abrigo público Tia Júlia no Ceará, Luiza Helena, explica que a idade das crianças mais procuradas para adoção, são aquelas entre 0 e três anos. “As pessoas pensam que há muita burocracia para se conseguir adotar e tem preferências limitantes. Na verdade, elas querem uma criança menina e branquinha. Por tanto, as demais, ficam aguardando indefinidamente. Aquelas com idade entre 4 e 6 anos, e entre 6 e 12 anos, situam-se numa faixa ainda mais difícil de serem adotadas.”

O abrigo Tia Júlia existe desde junho de 1981, e atualmente tem 75 crianças abrigadas. Entre elas, 25 crianças estão disponíveis para adoção, e somente 5 são saudáveis. As outras possuem paralisia cerebral, são cadeirantes, cegas, ou surdas e mudas, informa Luiza Helena. Há 50 crianças que não foram destituídas das famílias biológicas; com algumas está se trabalhando o vínculo familiar. O abrigo possui crianças de 0 a 7 anos de idade, segundo a coordenadora.

Responsabilidade humanitária e social

A jovem Carol, Tiago e Rafael com 12, 17 e 18 anos de idade respectivamente, possuem necessidades especiais e chegaram bebês no abrigo, revela a coordenadora. “Eu tenho uma sala de jovens com necessidades especiais que já estão com 17, 18 anos. Eles chegaram bebês e não foram adotados. Ficaram e cresceram aqui, pois não tinham os perfis mais procurados.”

As verbas para a manutenção dos abrigos têm origem no Governo Estadual, além das doações espontâneas oriundas de pessoas físicas e jurídicas. Podemos fazer algo mais, visitando esses locais e acrescentando á essas vidas atenção e carinho; inclusive às pessoas que cuidam das crianças. Esta responsabilidade social e humanitária diz respeito a todos nós. Os efeitos, também.
(Fonte: http://www.oestadoce.com.br)

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