quinta-feira, 9 de março de 2017

Artigo: Na terra de Antônio

Eis artigo enviado ao blog pela professora Maria Goreth Pimentel Nunes Amâncio, secretária da Academia Quixeramobiense de Letras, Ciências e Artes - AQUILETRAS.

187 anos que nesta terrinha de meu Deus nasceu um Antônio e, com ele, a semente de um sonho. Sonho que alimentou a luta, uma luta desigual e desumana como a vida de seu povo, como se natural fosse a mesa farta do banquete de alguns à custa da miséria da maioria.

E a criança sofrida se fez homem e sentiu na pele a dor da injustiça social que maltrata o corpo e fere a alma de seus irmãos. E assim, saiu Antônio em nome de Deus, pelo sertão adentro e pelo sertão afora, disseminando o sonho da Terra Prometida e arrastando multidões. O sonho, pouco a pouco, foi crescendo no seu coração e desenhando em sua mente um projeto: construir uma sociedade igualitária, saciar a fome e a sede através do trabalho coletivo na terra que é de todos.

Além de milhares de seguidores, atraiu também o ódio dos “donos do poder”ameaçados em sua hegemonia dominante. Pagou um preço alto pela ousadia de pensar e de fazer diferente. Machucaram seu corpo, porém não conseguiram endurecer sua alma. Mancharam seu nome mas não apagaram sua luta.

 E o sonho, que se fizera coletivo, deixou de ser um sonho só. Tornou-se realidade: Canudos foi a prova viva de que é possível sim, construir um mundo melhor para todos. Uma vida simples, porém digna, sem miséria nem riqueza, onde todos trabalhavam e as mãos que, muitas vezes estiveram vazias ou estendidas para suplicar esmolas ou direitos como se favores fossem, passaram a produzir alimento, fruto do suor de seus rostos.

Um pobre sertanejo mostrou ao mundo e de forma prática uma sociedade alternativa que muitos intelectuais teorizaram e não saiu do papel. Uma sociedade construída com a cara e voz do povo e que incomodou muita gente do lado de cima. E por isso, foi cruelmente extinta. Virou um grande palco de guerra, uma lagoa de sangue que afogou tantas vidas. Tentaram apagar da memória social.

Não conseguiram. Contaram a história mal contada, como sempre o fazem, mas ela resistiu pela força e coragem de um povo simples e guerreiro que deu a vida por uma causa, de todas a mais nobre: a luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Antônio não morreu…continua aí, mais vivo do que nunca, junto aos seus seguidores, enfrentando a ira de um sistema historicamente cruel e excludente em sua essência. Continuam os golpes e toda a crueza de uma luta ideológica perversa e amoral que sempre tem denegrido a imagem dos líderes populares e ameaçado os projetos de inclusão social.

E a história continua a ser escrita com suor e sangue... Que a semente plantada por Antônio Conselheiro seja relembrada e refletida para iluminar a luta sempre tão presente e atual por um futuro mais feliz e mais humano para tantos Antônios, Joãos, Chicos, Josés e Marias que continuam sofrendo as dores de um mundo injusto que lhes nega a qualidade de vida e lhes rouba o direito de ser cidadão em um sistema que fabrica a miséria e que tenta,a todo custo,se perpetuar no poder inocentando a si mesmo e culpando o pobre pela vida desumana a que tem sido condenado.

Refletindo com Bauman a modernidade líquida, constatamos as conexões do mundo contemporâneo, cada vez mais individualizadas em um processo de fragmentação da vida humana,que deixa de pensar no coletivo e reforça a tendência ao consumismo , tão influentes no comportamento hodierno com o advento de uma nova geração que, embora com o coração cheio de boas intenções, levanta equivocadamente as bandeiras da desvalorização do humano e da liquidez das relações, gerando um descompromisso com as questões sociais e coletivas.

E a história se repete na sua forma mais cruel. Mesmo assim, este mundo ainda tem jeito. Há sempre uma esperança brotando. Ela não morre jamais. Salve a todos que abraçam a luta por um mundo melhor para todos! Viva Antônio Conselheiro! Salve Conselheiro vivo!  Salve Quixeramobim, sua terra natal!

Por
Maria Goreth Pimentel Nunes Amâncio
(Professora, secretária da Academia Quixeramobiense de Letras, Ciências e Artes - AQUILETRAS Especialista em: História do Ceará/ UECE; Gestão Escolar/ UDESC; Gestão e Avaliação da Educação Pública/ UFJF; Educação Global, Construção da Cidadania e Inteligências Humanas pela FADIRE e Mestranda em Educação pela Flórida Christian University)

Postado por: Jornalismo - Sistema Maior de Comunicação

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